out·sid·er (click to hear the word)
- One who is excluded from a party, association, or set.
- One who is isolated or detached from the activities or concerns of his or her own community.
- A contestant given little chance of winning; a long shot.
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Sexta-feira, Julho 29, 2005
Eu voltarei.
qualquer coisa às 3:50 PM
Almas penadas:
Terça-feira, Abril 26, 2005
Da série Teorias Infundamentadas
A explicação para o ato de comer muito quando se está deprimido pode ser encontrada na análise da evolução da espécie humana. Desde a formação das sociedades primitivas há no homem uma espécie de instinto coletivo de preservação. Os nossos antepassados eram nômades e precisavam fugir constantemente de predadores, já que no começo o homem não sabia usar armas para defender-se. Assim, o indivíduo que não conseguia encontrar um parceiro passava a se empanturrar. Ficando mais pesado e sendo deixado para trás do grupo, ele terminava por servir de alimento aos animais selvagens. Esses sacrifícios isolados salvavam a vida de muitos, além de aliviar com a desencarnação o sofrimento daqueles que estavam condenados a solidão e a abstinência sexual. Esse comportamento resistiu a centenas de milênios (assim como o apêndice e os dentes caninos) e mostra que ingerir potes inteiros de sorvete enquanto se pranteia a miséria da vida esconde, na verdade, um desejo intenso de morrer.
qualquer coisa às 8:05 PM
Almas penadas:
Segunda-feira, Abril 25, 2005
Depois que morreu percebeu que estava enganado. Achou que não haveria nada, mas se deu conta de que a consciência ainda existia. Era como vagar pela escuridão ou pensar de olhos fechados. Não tinha mais braços, nem pernas, corpo enfim. Apenas a mente liberta no infinito. A sensação era boa, sem fome, frio ou qualquer espécie de desejo. Aos poucos, sentiu que estava ligado a outras mentes vagantes e que se fundia a elas. Não estava mais isolado, o sofrimento causado por ter nascido, se desprendido do todo, havia cessado. Assim, foi absorvido pela inteligência universal, que não era superior e arrogante, mas da qual ele fazia parte. Só então ele entendeu esse conceito tão complicado, essa idéia tão distante, que as pessoas chamam de Deus.
qualquer coisa às 5:20 PM
Almas penadas:
Terça-feira, Abril 19, 2005
Viajante do tempo
Ele não entendia os minutos, as horas nem os dias. Tampouco diferenciava o dia ou a noite. Sua vida era um estranho ir e vir de acontecimentos. Hora era criança e estava na escola, hora era adulto e trabalhava. Ignorava se isso era a realidade.
Assim, economizava o dinheiro do lanche para comprar um carro novo. Enchia a cara com seus colegas de vinte e poucos anos à noite e contava essa história para os seus netinhos de manhã. Algumas vezes, saia do útero de sua mãe e morria de velhice no mesmo dia.
Durante muito tempo ele ficou perdido, tentando entender por que, para ele, o tempo não seguia uma linha reta. Era como um defeito do cosmo, um bug no universo. Primeiro, achou que era um louco. Mas percebeu que os fatos eram coerentes, sempre o mesmo nome, a mesma aparência, os mesmos lugares. Só a sua idade mudava de um modo estranho, fazendo com que ele navegasse ao léu por um recorte no tempo de 83 anos, muitas vezes repetindo as mesmas épocas.
Então teve a revelação de que, na verdade, era um imortal, uma espécie de deus. E decidiu flutuar, sem se importar muito, vivendo cada momento de um modo verdadeiro, tentando ajudar as pessoas a entenderem que as vidas delas não são assim tão diferentes da dele.
qualquer coisa às 8:20 PM
Almas penadas:
Quinta-feira, Fevereiro 24, 2005
Norberto viu uma formiguinha entre as migalhas de pão da mesa da cozinha. Teve a impressão de que ela estava perdida, ficou com pena e decidiu adotá-la. Agora o inseto seria seu animal de estimação e se chamaria Bandit.
Pegou um vidro de maionese vazio e fez uns furos na tampa, para o ar entrar. Dentro do recipiente, colocou um pedacinho de pão. Norberto não sabia se formiga bebia água, mas por via das dúvidas colocou uma tapinha de garrafa cheia d'água ao lado do pão, o que deu um tremendo trabalho. Finalmente, acomodou Bantit em sua nova casa e a tampou para que ele não fugisse.
Então Norberto tomou banho, vestiu-se e foi para o trabalho. Ele era balconista de uma lojinha de relês na Santa Efigênia. Ficou no balcão durante a manhã, almoçou ao meio dia e atendeu um cliente à tarde, que não comprou nada. Já era quase noite quando o expediente terminou e o rapaz voltou para casa.
Logo que entrou foi para a cozinha para ver como estava o Bandit. Mas se deparou com uma enorme desgraça: o bicho estava morto! Afogado na água que ele mesmo havia colocado. Sentiu-se um idiota por não pensar que isso poderia acontecer. Teve vontade de chorar. Pensou em ligar para um amigo para conversar e esquecer a tristeza. Porém isso não seria possível. Norberto não tinha amigos.
qualquer coisa às 4:20 PM
Almas penadas:
Quarta-feira, Fevereiro 23, 2005
Bobeirinha nova no blog. Como as camisetas já deram o que tinham que dar, criei a minha própria história em quadrinhos. Claro que dá para notar as minhas limitações como artista, já que cada historinha tem apenas um quadro e os personagens são círculos, triângulos e quadrados. O esquema é o mesmo das camisetas, o treco muda cada vez que você atualiza a página.
qualquer coisa às 2:06 PM
Almas penadas:
Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005
Osvaldo Juan Marques era escritor. Sua única obra era um romance chamado "Memórias de um Gato Xadrez". Como nenhuma editora aceitou o seu livro, ele mandou imprimir, por conta própria, alguns exemplares, que vendia nos bares da Vila Madalena.
Dizia não se importar com a sua falta de reconhecimento e até já se empenhava em um novo trabalho: "Peripécias de um Cão Listrado", segunda parte de uma trilogia que ele batizara de "Padrões de Tecido Encarnados". A obra final também já estava na cabeça do artista e era denominada "O Homem com Bolinhas Amarelas". Sim, um dia iriam perceber sua genialidade. Venderia no mundo inteiro, mais que o Paulo Coelho, e teria os direitos de seus livros vendidos para o cinema.
- Mas de que se trata esse livro? Perguntou o bêbado.
- É sobre um gato que nasceu com o pêlo xadrez.
- Nossa, genial. Lê um pedaço para mim.
- Tá. Vou ler uma parte do segundo capítulo: "à procura de alimento, na madrugada, depois da chuva, o animal pisou em uma poça. Sob o luar, ele viu outro bicho no espelho aquático: um gato. Mas com um pêlo estranho, que parecia a camiseta de flanela usada por seu antigo dono. Teve saudades de casa e miou para a lua. Ao se mover, percebeu que o gato xadrez se movia também, os mesmos movimentos. Como seria isso possível? E então entendeu. Era um reflexo, era ele próprio o gato xadrez. Neste instante descobriu porque sua vida nunca fora normal, o motivo pelo qual todos o olhavam de um modo diferente".
- Lindo, lindo - o bebum, com lágrimas nos olhos - quanto é?
- 10 reais.
- Faz por 5?
E assim passavam-se os dias de Juan Marques (ele gostava de seu nome, parecia de escritor mesmo). Com o dinheiro que juntava vendendo seus livros de mesa em mesa de bar, ele pagava o aluguel do quartinho em que morava. Todas as noites ligava seu computador - o melhor e quase único amigo - e escrevia mais umas cinco ou seis páginas. De vez em quando, abria a janela para olhar o céu enquanto fumava. Ficava feliz ao enxergar uma estrela, apesar da poluição, das luzes ofuscantes da cidade e da fumaça de seu próprio cigarro.
- Algumas brilham mais, outras menos. Mas todas são lindas.
qualquer coisa às 7:30 PM
Almas penadas:
Sexta-feira, Fevereiro 11, 2005
Madeirófoles era um pedaço de madeira filósofo. Usou os 25 anos que passou encostado em um canto da garagem do Seu Celso para conceber sua complexa teoria dos Quantas de Improbabilidade Exponencial, que poderia explicar todo o sentido da vida, a origem do Universo e até o que se passa na cabeça das mulheres. Mas como pedaços de madeira não se mexem nem falam, ninguém imagina que eles possam pensar. Por isso, toda a genialidade de Madeirófoles está fadada ao esquecimento. Ele apenas será útil como remendo para o estrado da cama de Selminha, filha de Celso, que foi quebrado por ela e o namorado quando o pai saiu para comprar pão.
qualquer coisa às 1:39 PM
Almas penadas:
Terça-feira, Fevereiro 08, 2005
Ricardo acreditava em Deus, mas como Ele é onipresente o rapaz ficava muito envergonhado quando o Todo Poderoso estava presente, ou seja, sempre.
Por causa disso, Ricardo nunca falou um palavrão. Na verdade, ele não entendia como alguém podia falar um nome feio na presença de Deus. Controlava inclusive os seus gases, até quando estava sozinho. Imagine que falta de respeito fazer Deus sentir cheiro de peido.
O pior era o banheiro. Sempre que precisava tomar banho ou usar o vaso, dizia uma rápida prece pedindo que Deus se virasse um pouquinho. Aí fazia o que tinha que fazer muito rápido. Afinal, quem era ele para manter o Salvador de costas por mais de alguns minutos.
O problema foi quando ele começou a namorar a Silvana, que também acreditava em Deus, mas não exagerava.
- Dá um beijo Rick.
- Não posso Sil. Deus está aqui.
Com o tempo, essa atitude passou a incomodar muito a moça, que acabou indo embora. Ele pediu para que Silvana ficasse, mas ela respondeu "ah... vai ver se Deus quer dar para você". Ricardo ficou tão indignado com essa blasfêmia que decidiu nunca mais se relacionar com mulher nenhuma.
Com os anos, Ricardo foi tornando-se mais e mais religioso. Acabou indo para um mosteiro, isolado em uma região montanhosa. Fez voto de pobreza, de castidade e de silêncio, passando seus dias meditando na grandeza do Senhor. Tornou-se uma pessoa muito evoluída espiritualmente. Alguns viam nele um santo.
Certa manhã, depois de três dias ajoelhado, orando em pensamento e jejuando, Ricardo sentiu que finalmente havia chegado o momento. Sabia que poderia ver Deus! Abriu os olhos devagar e realmente enxergou Aquele que tudo pode, em todo o seu resplendor, com uma coroa de ouro e olhos que brilhavam como dois sóis. Tinha um semblante severo, com uma ligeira expressão de angústia, como se pesassem sobre Ele os pecados de todos os que salvou. Estava em um trono simples, de mármore. Ao lado havia um rolo de papel. Seria a última revelação? Um pergaminho sagrado? Não. Olhando bem era... Papel, papel higiênico!? Então Deus falou:
- E aí Ricardo, beleza? Espera só um pouquinho, por favor. Estou terminando de dar uma cagada e já falo com você.
qualquer coisa às 3:35 PM
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Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005
Estava tranqüila, bebendo uma caipirinha de kiwi e esperando a amiga voltar do banheiro, quando viu um sujeito cambaleante vindo em sua direção.
- Oiii.. Eu conheço você!
Ela olhou com desprezo, fazendo aquela cara de nojo que só mulher sabe, torcendo um pouco o lábio superior. Um gesto que faz qualquer um se sentir um rato. Menos os bêbados, claro. Eles estão imunes a esse tipo de ataque.
- Te conheço sim. Você é a menina da propaganda da Renault. Já te vi num cartaz. Você está dando um joinha assim ó. Todo dia fico olhando para você enquanto espero o trem.
Ela ficou parada, sem se animar em nada com essa conversa. Era o que faltava, encontrar um fã. Se fosse bonitinho ainda... Mas era feio. E pobre, ainda por cima. Trem? Nem carro tinha o cara. Pelo menos alguém havia visto a propaganda, o primeiro trabalho desse tipo que ela tinha conseguido.
- Então. Você não vai acreditar. Eu olhava para a sua foto no cartaz todo dia e pensava em escrever uma história em que eu encontrava a moça do cartaz e agora eu te encontro de verdade. Estranho não? Acabo até de criar um nome para isso: metarealidade. Não sei se faz muito sentido essa denominação, acho melhor chamar de ironia do destino mesmo.
Falava para caramba o maldito, além de cheirar a cerveja e a cigarro. Como iria se livrar desse chato? Foi salva pelo gongo, a amiga voltou do banheiro. Perguntou quem era o rapaz.
- É só um cara que estava falando que viu aquela propaganda que eu fiz.
- Ah... Aquela em que você está dando um joinha assim ó?
O bêbado e a amiga, que já estava meio alta, riram juntos. Começaram a conversar e a menina do cartaz ficou meio de lado. Depois de alguns minutos, cansada de ficar ali, ignorada, decidiu andar pelo lugar. Quando voltou, viu os dois se beijando. Ficou morrendo de raiva. Afinal foi ela a reconhecida, sobre ela seria a história que o cara iria escrever, e ele ficando com a amiga?
- Esse direito era meu...
qualquer coisa às 2:18 PM
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Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005
Era a véspera do aniversário de Douglas. Foi comemorar no bar onde sempre ia beber, que chamava carinhosamente de "o meu bar". Convidou apenas o seu amigo Carlos. Não estava para festa. Passava por uma época estranha, sentia muita vontade de ficar sozinho, de falar pouco. Mesmo assim, estava bem aquela noite. Ele e seu amigo conversaram sobre os mesmos assuntos despropositados de sempre, como o porquê de ainda não terem lançado o DVD do Chaves e o motivo pelo qual o Police era mais legal que os Smiths.
O astral baixou um pouco quando a Vânia ligou. Por que ela tinha que lembrar do aniversário? Ele não queria falar com ela, nem dizer se estava bem ou mesmo perguntar como ela estava. Não sentia mais saudades, parecia não estar nem aí mesmo. Mas quando a via, ou ouvia sua voz, um nozinho bem pequeno se formava no peito de Douglas e ele sentia que isso ainda machucava um pouco. Foi um conversa rápida. Ele desligou o celular e olhou para o Carlos, que se preocupou.
- Tudo bem cara? Era ela?
- Era sim. Tequila?
- Opa!
Pediram. O celular de Douglas tocou novamente, era o Pedro, um amigo de muitos anos, quase um irmão, como se diz. Avisou que estava saindo do trabalho e indo para o bar. Antes dele, apareceram outros que também sempre se reuniam no boteco, meio que por acaso, era segunda-feira.
E então todos beberam, fumaram, riram e conversaram com umas meninas de uma mesa ao lado. Quando deu meia noite, os bêbados cantaram parabéns com a voz mole e brindaram ao amigo, que achou que, afinal, este havia sido um bom aniversário.
qualquer coisa às 2:06 PM
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Segunda-feira, Dezembro 20, 2004
Viajavam juntos. Ele a levou para países que ela nunca visitara. Ela fez o mesmo. Alguns lugares conheceram juntos e precisaram ficar de mãos dadas para não se perderem nem um do outro, nem deles mesmos.
Mas o mundo é grande demais para uma vida apenas. E, após alguns anos, o que cada um queria descobrir já não coincidia. Como não queriam separar-se, cediam. Mas a frustração aumentava a cada dia.
Então, naquela estação, decidiram pegar trens para direções opostas. Ela estava voltando para casa. Ele não sabia para onde estava indo. Na verdade, queria mesmo se perder, esquecer-se de quem era e de seu passado. Apenas para recomeçar a viagem.
qualquer coisa às 1:45 PM
Almas penadas:
Segunda-feira, Novembro 29, 2004
Tentei colocar embaixo da cama, esconder na gaveta e guardar dentro de uma caixa de sapato, só para me esquecer. Mas ele sempre está lá. Não se dissolveu na água, nem secou no sol, agüentou pancadas sem morrer. Às vezes acho que ele já era, mas não. Toda vez que chego em casa, sozinho, de madrugada, ele aparece, bem na minha frente. Isso quando não o vejo no meio da estrada, no meu carro, enquanto eu estou fumando o quadragésimo cigarro da noite e jurando que é último da minha vida.
Mas não sou bom em juramentos.
Com o tempo, experimentei ações mais radicais. Joguei pela janela, queimei numa fogueira, tentei trocar por outro e até fingir que ele não existia. Mas nada funciona. Ele não morre de fome, nem de frio, nem de desgosto. É mais forte que eu. Então desisti de lutar e decidi aceitá-lo como parte da minha vida. Sei que cada dia ele tem uma cor, um tamanho, um jeito de agir e de me dizer como agir, é natural. É ele quem me faz ligar de madrugada, ficar triste, ficar feliz e escrever textos como este.
qualquer coisa às 2:02 PM
Almas penadas:
Quinta-feira, Novembro 25, 2004
Ônibus-biblioteca
Eu trabalho para ganhar dinheiro. O dinheiro eu gasto com pinga. A pinga é feita de cana. Tinha um pé de cana no quintal da casa em que eu morava. A casa em que eu morava ficava no Jardim Imbé. O Jardim Imbé é bem pertinho do Jardim Ângela. No Jardim Ângela tinha um ônibus-biblioteca. No ônibus-biblioteca eu peguei vários livros da série Vagalume. Vagalumes me lembram minha infância. Na infância eu era feliz. Era feliz porque eu não tinha que trabalhar. Eu trabalho para ganhar dinheiro.
qualquer coisa às 2:16 PM
Almas penadas:
Terça-feira, Novembro 23, 2004
Carla percebeu o que a fazia sofrer: era aquela sensação de que seria descartada a qualquer momento. Amava o cara, mas sempre que eles acordavam, no casa dele, ficava uma sensação de que ela estava incomodando. Isso e nenhum carinho, nenhuma demonstração bacana, apenas coisas como "eu não sei... às vezes acho que te amo" ou, mas isso só quando ele bebia, um "sou apaixonado por você". Em nenhum de seus planos, ela estava inclusa.
E assim se passaram meses e meses. Em determinadas épocas Carla sentiu que estava chegando perto dele, que ele iria ceder, abrir um espaço e dar uma chance para ela. Mas não, nunca. Isso fez com que o amor dela virasse tristeza, depois desespero, então ódio, e finalmente, um sentimento frio, que ela tentava requentar, mas que estava apodrecendo, se decompondo. Acabou que o amor virou cinismo. E assim ela nem se importava mais em fazer papel de boba. Era apenas inércia. Agora era só saltar do ônibus, não seria difícil.
Quando transaram naquela noite, ela disse que era pela última vez. Ele não levou muito a sério. Mas ela sim. Depois que terminaram, os dois praticamente desmaiaram um ao lado do outro, como sempre. De manhã, enquanto tomava banho, ela se deu conta que não voltaria mais ali. Não sentiria falta na verdade. Tudo parecia um pedaço do passado. Estava aliviada. Colocou a roupa e observou enquanto o cara se vestia apressado. Ele era apenas um móvel, uma peça da casa, uma parte do cenário. Essa cena da vida dela estava acabada. Deu um beijo rápido nele, disse tchau e foi embora. Para não voltar mais.
qualquer coisa às 9:55 AM
Almas penadas: